terça-feira, 4 de novembro de 2008

primeira aparição

O tema para o primeiro post deste blog não é o Magalhães, nem o Orçamento de Estado para 2009 e muito menos a nacionalização do BPN. É a chuva. Acontece que tem estado a chover e ao típico português surge um dos três possíveis pensamentos quando ao acordar se apercebe do cenário chuvoso:

1) “epáh está a chover, isto o melhor é voltar para a cama a ver se pára”

2) “tá a chover, já vou chegar atrasado”

3) “tá a chover, é desta que a televisão vem cá a rua qu’isto hoje é que vem praí uma cheia do catano”

À excepção do último pensamento, quando a cheia na rua destrói 7 viaturas, inunda todos os estabelecimentos comerciais e provoca cortes de luz durante horas mas lhe concede o destaquee no bairro por ter aparecido no jornal das 8 a dizer nada mais do que aquilo que é óbvio, só existem mais duas situações que o animam quando chove. Ou está já em casa enroscado no robe de flanela escura, rabo enfiado entre as almofadas gastas do sofá e de testa colada ao novo plasma (esse bem essencial maior) e sabe que já não vai ter que sair para comprar tabaco nem uma grade de cerveja; ou então está no carro e decide molhar toda a gente que tem a graciosa ideia de passar perto duma poça de água, rindo alarvemente contra o pára-brisas impregnado de bombas salivares, e aí sim é feliz e adora que esteja a chover.

Porém, se já é complicado lidar com o comportamento deste indivíduo então quando chove é o caos e a simples tarefa de andar num passeio torna-se o palco do improviso da capacidade locomotora, apesar de maximizar a possibilidade de pancadaria e peixeirada com desconhecidos, e isso é algo que o alegra.

É incrível como esta gente perde a noção espacial a partir do momento que sustenta um guarda-chuva numa das mãos... bem... o guarda-chuva, o cigarro, o telemóvel, o saco das compras, o termo do café e a mala ao mesmo tempo que tentam ver as horas no relógio entalado entre a manga da camisola de lã e o casaco de inverno. E nisto até o belo “desenrascar” que tanto o português gosta é posto em causa e perde-se o passo gingão mas eficiente de outrora, para se optar por uma espécie de bailado manco de guarda-chuvas irritantemente atropelado pelo frenesim do abre-e-fecha para “facilitar” a passagem. Um género de passerelle coxa num cruzar progressivo de floreados e cores e listas e tantos outros padrões que começo a ponderar que tenha um efeito hipnótico propositados para nos bloquear de vez. Há até quem pense que sejam mesmo os espanhóis que estejam por detrás do panejamento dos guarda-chuvas, a ver se é desta que invadem o país e passamos todos a cantar fado com o bater de fundo de castanholas e a fazer vénia a sua majestade Rei Juan Carlos I, digo, Juan Carlos Alfonso Víctor María de Borbón y Borbón! Sim, porque apesar de ser português e "a paelha da vizinha ser sempre melhor que a minha”, português há de morrer português, nem que venda a pátria entretanto!

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