A tasca é o plateau de eleição do tuga. Mesas toscas, que permitem ter uma postura inquieta, muito vantajosa em discussões (ora de pé quando se exalta, ora sentado quando leva nas orelhas), traçadinho, vinho tinto carrascão e verde de pressão, tremoços, jolas, pica-paus, bifanas, sandes variadas, tabaco açoreano de contrabando e bagaço. Tudo baratinho e com direito a uma bela suecada ou para os mais astutos uma bisca-lambida.
O espaço é reduzidinho, mas o tuga (como é sabido) não tem nada a esconder, e até o gajo da mesa de trás pode (e deve) ouvir o que ele tem para dizer sobre as temáticas actuais do país... o de trás, o da frente, o do fundo, o dono que está ao balcão e quem entra, pra ficar logo a par do que se fala ali.
Mas a tasca encerra em si mesma propriedades que a distinguem de longe dos restantes estabelecimentos. A mais evidente é o cheiro. O cheiro é uma característica que condensa todos os odores que são emanados para aquele micro-clima. Difícil é mesmo a tarefa de os separar. É o cheiro da cebolada requentada onde se mergulham as bifanas, é o cheiro azedo do vinagre dos pickles enfiados no pica-pau em bandejas de aluminio, é cheiro do ranço das fatias de presunto postas num prato suposto branco mas já amarelecido, é o cheiro do suor encardido na roupa apertada ao corpo “aromatizado” por um spray barato, o cheiro do bagaço derramado no balcão limpo com o pano já gasto que “limpa” também as restantes mesas da tasca e obviamente as mãos do dono depois de sair do lavabo. E é claro o baço humecido do tabaco que acasa-la no ar com o fumo denso e gorduroso que sai da chapa esturricada que já viu de tudo a passa-lhe por cima. Que bonito.
Além do cheiro, há mais duas caracteristicas fulcrais: texturas e aparecência visual. Textura obviamente gordurosa é por isso que nos restaurantes chineses o chão ao pé da cozinha também o é – estratégia de marketing dos chineses para Portugal.
Quanto ao espaço em si muito modesto: forrado a azulejo de traçado afloreado e chão em tejoleira escura, um balcão corrido com uma estreita entrada ao fundo (onde a mulher gorda do dono roça as bordas cada vez que passa), 4 ou 5 mesas quadradas ou redondas, um expositor de comida cheia de dedadas gordurosas nos vidros onde se destacam os ovos cozidos há 2 semanas ou uns carapaus fritos durante a madrugada no mesmo óleo das chamuças, ao lado duns pasteis muito mal paridos, e é claro muitas minis coladas à prateleira inferior misturadas com pacotes de leite abertos, Sumol’s laranja e Trinaranjus (para quem não gosta de bolhinhas). Ao fundo da tasca, e à esquerda, os lavabos com duas portas à Texas (não fosse este um local de grandes cowboiadas), cuja entrada está atravancada com as cadeiras das mesas; do lado direito a passagem para a parte traseira do balcão seguido de um rasgo tosco para a “cozinha” – secção consporcada para a pseudo-confecção de refeições. Ao centro ou então perto da porta de entrada está, presumo eu que seja ironicamente, um pequeno lavatório com uma toalha sempre encharcada para... secar as mãos.
E vem a ASAE acabar com isto tudo?! “É disto que o meu povo gosta!” lá dizia o saudoso Jorge Perestrelo! Mas cá para nós: se isto é merda, eu gosto desta merda!