sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

"É duas mine e uma sande"

O português gosta de comer. O português gosta de comer muito. O português gosta de comer muito e barato. Acho que agora tudo se torna claro relativamente ao porquê do nascimento da tasca em Portugal...
A tasca é o plateau de eleição do tuga. Mesas toscas, que permitem ter uma postura inquieta, muito vantajosa em discussões (ora de pé quando se exalta, ora sentado quando leva nas orelhas), traçadinho, vinho tinto carrascão e verde de pressão, tremoços, jolas, pica-paus, bifanas, sandes variadas, tabaco açoreano de contrabando e bagaço. Tudo baratinho e com direito a uma bela suecada ou para os mais astutos uma bisca-lambida.
O espaço é reduzidinho, mas o tuga (como é sabido) não tem nada a esconder, e até o gajo da mesa de trás pode (e deve) ouvir o que ele tem para dizer sobre as temáticas actuais do país... o de trás, o da frente, o do fundo, o dono que está ao balcão e quem entra, pra ficar logo a par do que se fala ali.
Mas a tasca encerra em si mesma propriedades que a distinguem de longe dos restantes estabelecimentos. A mais evidente é o cheiro. O cheiro é uma característica que condensa todos os odores que são emanados para aquele micro-clima. Difícil é mesmo a tarefa de os separar. É o cheiro da cebolada requentada onde se mergulham as bifanas, é o cheiro azedo do vinagre dos pickles enfiados no pica-pau em bandejas de aluminio, é cheiro do ranço das fatias de presunto postas num prato suposto branco mas já amarelecido, é o cheiro do suor encardido na roupa apertada ao corpo “aromatizado” por um spray barato, o cheiro do bagaço derramado no balcão limpo com o pano já gasto que “limpa” também as restantes mesas da tasca e obviamente as mãos do dono depois de sair do lavabo. E é claro o baço humecido do tabaco que acasa-la no ar com o fumo denso e gorduroso que sai da chapa esturricada que já viu de tudo a passa-lhe por cima. Que bonito.
Além do cheiro, há mais duas caracteristicas fulcrais: texturas e aparecência visual. Textura obviamente gordurosa é por isso que nos restaurantes chineses o chão ao pé da cozinha também o é – estratégia de marketing dos chineses para Portugal.
Quanto ao espaço em si muito modesto: forrado a azulejo de traçado afloreado e chão em tejoleira escura, um balcão corrido com uma estreita entrada ao fundo (onde a mulher gorda do dono roça as bordas cada vez que passa), 4 ou 5 mesas quadradas ou redondas, um expositor de comida cheia de dedadas gordurosas nos vidros onde se destacam os ovos cozidos há 2 semanas ou uns carapaus fritos durante a madrugada no mesmo óleo das chamuças, ao lado duns pasteis muito mal paridos, e é claro muitas minis coladas à prateleira inferior misturadas com pacotes de leite abertos, Sumol’s laranja e Trinaranjus (para quem não gosta de bolhinhas). Ao fundo da tasca, e à esquerda, os lavabos com duas portas à Texas (não fosse este um local de grandes cowboiadas), cuja entrada está atravancada com as cadeiras das mesas; do lado direito a passagem para a parte traseira do balcão seguido de um rasgo tosco para a “cozinha” – secção consporcada para a pseudo-confecção de refeições. Ao centro ou então perto da porta de entrada está, presumo eu que seja ironicamente, um pequeno lavatório com uma toalha sempre encharcada para... secar as mãos.
E vem a ASAE acabar com isto tudo?! “É disto que o meu povo gosta!” lá dizia o saudoso Jorge Perestrelo! Mas cá para nós: se isto é merda, eu gosto desta merda!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

amaciador em vez de shampô

Poucas são as tradicionais mercearias ainda em funcionamento nos dias hoje, o que é pena. Longe vão os tempos em que ir às compras era uma actividade prazerosa e até de certo modo terapeutica, com os simpáticos donos atrás do balcão que no final ainda nos davam uns flocos de neves ou umas pastilhas gorila de troco. Hoje a mercearia foi substituída pelo super, hiper e (um diga destes) megasupermercado e consequentemente com ela foram os flocos de neve de “bónus”.
Os tapetes rolantes que direccionam os produtos até à máquina de leitura de código de barras tornaram-se, juntamente com o empregado de caixa, um dos maiores inimigos do vulgar português. Se por um lado os tapetes rolantes incrivelmente nunca estão desocupados no momento em que se chega à caixa para pagar, por outro lado o empregado nunca se presta para o facilitar. Vê o cliente chegar, olha-o de sorriso hipócrita rangendo entre dentes “espera aí tu também qu’eu também esperei 9 meses para nascer” e faz de tudo para que não tenha que desocupar o espaço do tapete para que a próxima vítima que se avizinha possa descarregar as compras. Pronto, está tudo a postos para o início da tourada.
Primeiro a pergunta que baralha logo o vulgar português sobre o cartão de descontos (quando este no mínimo dispõe 30 cartões na carteira, entre eles o da ração para os cães), logo a seguir pergunta “Quer saco? Quantos?” e naquele instante, mas com ar de quem tudo sabe, vê-se obrigado a por à prova todos os seus conhecimentos de gestão volumétrica e armando-se em Robocop de bigode, varre de rajada com o olhar o tapete cheio de produtos contabilizando “coisas”, ao mesmo tempo que apercebe que tirou amaciador da prateleita em vez de shampô. Mas ao responder “3”, ao número de sacos que precisa mesmo sem saber se será suficiente, já está o empregado de caixa a atirar desalmadamente as compras para a plataforma da etapa final: o ensacamento. E é aqui que a “magia” acontece. Se já está irritado por não conseguir abrir o saco, esmifrandos os dedos contra as películas de plástico, fica fora de si ao perceber que o empregado, de olhar provocador e intimidatório, insiste a atirar cada vez mais produtos pra cima e que o tapete (em constante movimento) os amontua aleatoriamente naquele caos. E como se já não fosse pouco todo o estado de nervosismo com o saco que não abre, o empregado a vomitar compulsivamente produtos para um tapete frenético, sem conseguir pôr nada dentro dos sacos, mais o bip irritante da leitura do código de barras, percebe que o cartão de crédito que precisa está na carteira! Retira o cartão, deixando evoluir o monte de compras que entretanto começa a achar serem desnecessárias para aquele dia, e nisto o empregado pergunta “Vai pagar com cartão o cartão ou em dinheiro?” e ao português só lhe apetece dizer “oh c*r*lh* pra qué que achas que tirei o cartão? Pra fazer uma risca de coca em cima do tapete?!”
E nisto toda a sua raiva emerge atirando pra dentro dos sacos mal abertos as compras que já não sabe se são suas ou se da outra pessoa que vinha atrás de si mas já está a ser atendida, acabando por romper com os sacos e sair do hipermercado a mancar para que as compras não vão parar ao chão.
Jura não mais lá voltar, mas no dia seguinte lá está ele outra vez.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

primeira aparição

O tema para o primeiro post deste blog não é o Magalhães, nem o Orçamento de Estado para 2009 e muito menos a nacionalização do BPN. É a chuva. Acontece que tem estado a chover e ao típico português surge um dos três possíveis pensamentos quando ao acordar se apercebe do cenário chuvoso:

1) “epáh está a chover, isto o melhor é voltar para a cama a ver se pára”

2) “tá a chover, já vou chegar atrasado”

3) “tá a chover, é desta que a televisão vem cá a rua qu’isto hoje é que vem praí uma cheia do catano”

À excepção do último pensamento, quando a cheia na rua destrói 7 viaturas, inunda todos os estabelecimentos comerciais e provoca cortes de luz durante horas mas lhe concede o destaquee no bairro por ter aparecido no jornal das 8 a dizer nada mais do que aquilo que é óbvio, só existem mais duas situações que o animam quando chove. Ou está já em casa enroscado no robe de flanela escura, rabo enfiado entre as almofadas gastas do sofá e de testa colada ao novo plasma (esse bem essencial maior) e sabe que já não vai ter que sair para comprar tabaco nem uma grade de cerveja; ou então está no carro e decide molhar toda a gente que tem a graciosa ideia de passar perto duma poça de água, rindo alarvemente contra o pára-brisas impregnado de bombas salivares, e aí sim é feliz e adora que esteja a chover.

Porém, se já é complicado lidar com o comportamento deste indivíduo então quando chove é o caos e a simples tarefa de andar num passeio torna-se o palco do improviso da capacidade locomotora, apesar de maximizar a possibilidade de pancadaria e peixeirada com desconhecidos, e isso é algo que o alegra.

É incrível como esta gente perde a noção espacial a partir do momento que sustenta um guarda-chuva numa das mãos... bem... o guarda-chuva, o cigarro, o telemóvel, o saco das compras, o termo do café e a mala ao mesmo tempo que tentam ver as horas no relógio entalado entre a manga da camisola de lã e o casaco de inverno. E nisto até o belo “desenrascar” que tanto o português gosta é posto em causa e perde-se o passo gingão mas eficiente de outrora, para se optar por uma espécie de bailado manco de guarda-chuvas irritantemente atropelado pelo frenesim do abre-e-fecha para “facilitar” a passagem. Um género de passerelle coxa num cruzar progressivo de floreados e cores e listas e tantos outros padrões que começo a ponderar que tenha um efeito hipnótico propositados para nos bloquear de vez. Há até quem pense que sejam mesmo os espanhóis que estejam por detrás do panejamento dos guarda-chuvas, a ver se é desta que invadem o país e passamos todos a cantar fado com o bater de fundo de castanholas e a fazer vénia a sua majestade Rei Juan Carlos I, digo, Juan Carlos Alfonso Víctor María de Borbón y Borbón! Sim, porque apesar de ser português e "a paelha da vizinha ser sempre melhor que a minha”, português há de morrer português, nem que venda a pátria entretanto!

boas vindas

“Se isto é merda, eu gosto desta merda” é o lema que se encaixa melhor à visão do típico portuguê sobre o seu próprio país, na opinião dos mentores deste blog. Com efeito, aqui serão explanadas opiniões que, caracterizando e identificando o português do ponto de vista socio-comportamental nas mais variadas temáticas, nos fornecerão por ventura elementos importantes para o melhor conhecimento e compreensão deste cidadão do mundo. Seja benvindo.